A menina dorme no quarto que não
é dela. O cheiro do mofo é quadriculado dentro das cobertas. O vazio da
ausência escurece as pálpebras. É possível ver a rua e os carros pelas luzes no
teto. Um ou dois caminhões pulverizam a madrugada. “Onde o tio foi morar agora?”.
Ninguém responde. Os brinquedos ainda na estante. Um tabuleiro de gamão que
nunca aprendeu a jogar. Alguém, insone, caminha no corredor, acessando cômodos
vazios. Não há paredes na parte de dentro. Se acende o abajur – quantas silhuetas!
A noite é o oposto do café da tarde. O sabor do chocolate amargo ainda está na
boca. “O que é aquilo que a vó bebe escondido na prateleira do armário?”. Eles
gostavam muito de viajar. Uma vez fomos juntos para a Bahia, quando eu tive que
trazer um coral escondido dentro da mochila. Foi a primeira vez que eu comi
caju. Agora, ninguém viaja. A não ser o tio, que viajou permanentemente para
outro lugar. Todas as outras cidades são diferentes daqui. A maioria são
quentes e não possuem casas com lambrequins. A noite será uma noite longa. As
ruas entram pela boca quando ela respira. A lembrança do incidente ainda é
recente. A águia tatuada num dos braços. Eu acho que logo deve chover. Sempre
que alguém morre, ela dorme ali. Sempre que alguém morre, ela sente o cheiro do
mofo quadriculado. No armário – apostilas corroídas, gibis velhos, caixas de
jogos de videogame, revistas de moto. Alguém mexe no trinco da porta. Ela se
levanta e confere – ninguém do outro lado. Caminha, insone, pelo corredor do
apartamento. Na sala, o imenso coral que veio da Bahia, iluminado pelas luzes
dos carros. Brilha de uma forma diferente – como se tivesse sido pichado com
tinta prateada. As lembranças do tio não
são suficientes para o resto dos anos que ela deseja viver.
Juncos e lambrequins
quinta-feira, 23 de julho de 2020
O cheiro do mofo
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