quinta-feira, 23 de julho de 2020

O cheiro do mofo

A menina dorme no quarto que não é dela. O cheiro do mofo é quadriculado dentro das cobertas. O vazio da ausência escurece as pálpebras. É possível ver a rua e os carros pelas luzes no teto. Um ou dois caminhões pulverizam a madrugada. “Onde o tio foi morar agora?”. Ninguém responde. Os brinquedos ainda na estante. Um tabuleiro de gamão que nunca aprendeu a jogar. Alguém, insone, caminha no corredor, acessando cômodos vazios. Não há paredes na parte de dentro. Se acende o abajur – quantas silhuetas! A noite é o oposto do café da tarde. O sabor do chocolate amargo ainda está na boca. “O que é aquilo que a vó bebe escondido na prateleira do armário?”. Eles gostavam muito de viajar. Uma vez fomos juntos para a Bahia, quando eu tive que trazer um coral escondido dentro da mochila. Foi a primeira vez que eu comi caju. Agora, ninguém viaja. A não ser o tio, que viajou permanentemente para outro lugar. Todas as outras cidades são diferentes daqui. A maioria são quentes e não possuem casas com lambrequins. A noite será uma noite longa. As ruas entram pela boca quando ela respira. A lembrança do incidente ainda é recente. A águia tatuada num dos braços. Eu acho que logo deve chover. Sempre que alguém morre, ela dorme ali. Sempre que alguém morre, ela sente o cheiro do mofo quadriculado. No armário – apostilas corroídas, gibis velhos, caixas de jogos de videogame, revistas de moto. Alguém mexe no trinco da porta. Ela se levanta e confere – ninguém do outro lado. Caminha, insone, pelo corredor do apartamento. Na sala, o imenso coral que veio da Bahia, iluminado pelas luzes dos carros. Brilha de uma forma diferente – como se tivesse sido pichado com tinta prateada.  As lembranças do tio não são suficientes para o resto dos anos que ela deseja viver.  


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